Você já saiu de uma consulta ouvindo que era só “falta de dieta”, que precisava “fechar a boca” ou que aquela dor nas pernas era “coisa da sua cabeça”? Se você sente peso nas pernas, inchaço que não melhora, hematomas que aparecem sem motivo e uma sensação de que ninguém entende o que se passa com o seu corpo, eu preciso te dizer uma coisa logo de início: você não está exagerando. O descrédito médico no lipedema é uma realidade cruel que atinge milhares de mulheres, e transforma uma jornada que já é difícil em algo ainda mais solitário e frustrante.
Meu nome é Roberta Portugal, sou médica endocrinologista, e escrevo este texto com uma dupla motivação. A primeira é científica: como profissional com grande experiência na área de lipedema, sei que essa condição tem nome, tem explicação e tem tratamento. A segunda é profundamente pessoal: eu também sou portadora de lipedema. Conheço na pele a angústia de não ser levada a sério e de tentar caber em roupas que simplesmente não fecham nas pernas, mesmo quando o restante do corpo está proporcional. É por isso que decidi transformar essa vivência em propósito.
O que é o lipedema, afinal?
O lipedema é uma doença crônica, progressiva e, na imensa maioria das vezes, feminina. Durante muito tempo ele foi confundido com obesidade ou com “gordura localizada”, mas hoje sabemos que se trata de algo bem diferente. Um ponto que costuma surpreender muitas pacientes é que o lipedema não é uma doença do tecido adiposo, e sim uma doença do tecido conjuntivo, na qual o tecido gorduroso é um dos principais acometidos.
Isso significa que não estamos falando apenas de um maior acúmulo de células de gordura. No lipedema, existe mais inflamação, mais fibrose, mais flacidez, maior frouxidão dos ligamentos e um risco aumentado de complicações ortopédicas ao longo do tempo. Por isso, a dor e o desconforto que você sente têm uma base biológica concreta. Não é frescura, não é preguiça e definitivamente não é falta de força de vontade.
A distribuição da gordura costuma ser desproporcional: pernas, quadris e, muitas vezes, braços ficam mais volumosos, enquanto o tronco e a cintura permanecem em uma proporção menor. Essa característica ajuda a diferenciar o lipedema de outras condições, mas o diagnóstico exige a avaliação de um médico com real experiência no tema.
Por que tantas mulheres ouvem que estão exagerando?
O descrédito médico acontece por uma combinação de fatores. Durante décadas, o lipedema foi pouco estudado e raramente ensinado nas faculdades de medicina. Como resultado, muitos profissionais nunca ouviram falar dele de forma aprofundada e acabam interpretando os sintomas como consequência do excesso de peso ou de ansiedade.
Some a isso o fato de que a dor é invisível. Ninguém consegue enxergar o quanto suas pernas doem ao final do dia, o quanto um simples toque pode incomodar, ou como aqueles hematomas surgem ao menor esbarrão. Quando os exames de rotina voltam “normais”, é fácil para um olhar desatento concluir que “não há nada de errado”. Mas ausência de alteração em exames comuns não significa ausência de doença.
Essa experiência repetida gera algo que observo em quase todas as pacientes que chegam ao meu consultório: um cansaço emocional profundo. Muitas já passaram por vários médicos, tentaram inúmeras dietas, investiram em tratamentos estéticos e saíram sempre com a mesma sensação de fracasso. A verdade é que o problema nunca foi a sua dedicação. O problema foi não ter recebido o diagnóstico correto.
Quais são os principais sintomas do lipedema?
Reconhecer os sinais é o primeiro passo para sair do ciclo de frustração. Entre os sintomas mais frequentes, destaco:
- Sensação de peso e cansaço nas pernas, especialmente ao final do dia;
- Dor ou sensibilidade ao toque na região afetada;
- Facilidade para desenvolver hematomas, muitas vezes sem lembrar de qualquer batida;
- Inchaço que tende a piorar com o calor e ao longo do dia;
- Desproporção entre a parte inferior do corpo e o tronco;
- Pele com aspecto irregular e sensação de nódulos sob o toque;
- Pouca ou nenhuma resposta a dietas quando o assunto é a gordura das pernas.
Vale um esclarecimento importante: a dor é o sintoma mais comum, mas não está presente em todas as pacientes. Estima-se que ela ocorra em cerca de 86% dos casos, o que significa que existe lipedema sem dor em aproximadamente 14% das mulheres. Portanto, a ausência de dor não exclui o diagnóstico. Por outro lado, é preciso haver algum sintoma. Ter uma distribuição de gordura desproporcional, mas sem qualquer sintoma associado, não caracteriza lipedema.
Lipedema é a mesma coisa que obesidade?
Não. Lipedema e obesidade são doenças diferentes, com mecanismos distintos. Uma não se transforma na outra. No entanto, é extremamente comum que elas coexistam, e é justamente aí que mora boa parte da confusão.
O acúmulo de gordura característico do lipedema, somado à dor e ao peso nas pernas, pode levar a deformidades e a um maior sedentarismo. Esse conjunto de fatores muitas vezes contribui para o ganho de peso ao longo do tempo. Ou seja, são condições diferentes, mas que frequentemente andam juntas e se influenciam.
Do ponto de vista metabólico, o risco associado ao lipedema isolado tende a ser menor do que o da obesidade. Contudo, quando existe obesidade associada, o risco metabólico passa a ser o da obesidade, com todas as suas implicações. Por isso, um olhar de endocrinologia é tão valioso: avaliamos o corpo como um todo, não apenas as pernas.
Também é fundamental derrubar um mito: o lipedema não é uma condição exclusiva de mulheres com obesidade. Mulheres magras podem ter lipedema e, muitas vezes, são extremamente sintomáticas. O ganho de peso não é uma exigência para o diagnóstico.
Como é feito o diagnóstico do lipedema?
O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico. Isso quer dizer que ele se baseia em uma conversa detalhada sobre a sua história, seus sintomas e a evolução do quadro, associada a um exame físico cuidadoso. Não existe um único exame que “prove” o lipedema de forma isolada.
Na minha prática, costumo solicitar apenas ultrassom ou densitometria como exames complementares, sempre que necessário para apoiar a avaliação e afastar outras causas. O mais importante, no entanto, é a escuta atenta e a experiência no reconhecimento dos padrões da doença.
Vale lembrar que médicos de diferentes áreas podem diagnosticar o lipedema, como angiologistas e cirurgiões vasculares, cirurgiões plásticos e endocrinologistas, desde que tenham real experiência na condição. O que faz diferença não é apenas a especialidade, e sim o conhecimento específico sobre o tema.
O lipedema pode acontecer em homens?
Essa é uma dúvida frequente. O lipedema é uma condição predominantemente feminina, e casos em homens são extremamente raros. Quando ocorre no sexo masculino, geralmente está associado a alterações hormonais ou a outras patologias de base. Na prática clínica do dia a dia, portanto, estamos falando de uma doença que afeta majoritariamente as mulheres, o que reforça a importância de olhar com atenção para a saúde feminina em suas diferentes fases.
Existe cura ou tratamento para o lipedema?
Aqui preciso ser honesta com você, porque acredito em um cuidado sem promessas milagrosas. Não existe um tratamento mágico para o lipedema, tampouco um único recurso que resolva tudo sozinho. O que existe são muitas pequenas intervenções que, somadas e bem orientadas, podem trazer um resultado muito bom. É exatamente por isso que o acompanhamento com alguém que entende do assunto faz tanta diferença: cada corpo responde de um jeito, e o plano precisa fazer sentido para a sua realidade.
De maneira geral, o cuidado envolve alguns pilares que utilizo apoiada em ferramentas da medicina do estilo de vida e nos conhecimentos da endocrinologia:
- Alimentação anti-inflamatória: priorizamos alimentos naturais e reduzimos ultraprocessados, álcool e excessos de sal, açúcar e gorduras. O objetivo não é restrição punitiva, mas sim reduzir o processo inflamatório e melhorar o bem-estar geral.
- Atividade física: os exercícios são fundamentais e devem ter atenção à intensidade, ao volume e à adaptação individual, evitando o alto impacto. Existem diversas opções que podem ser adequadas ao seu caso, e a escolha ideal é sempre individualizada.
- Cuidado com a dor e o inchaço: medidas específicas ajudam a controlar sintomas e a melhorar a circulação, e em muitos casos podem ser complementadas por acompanhamento de fisioterapia.
- Saúde emocional e sono: o estresse crônico e a má qualidade do sono influenciam diretamente a inflamação e o metabolismo. Cuidar desses aspectos faz parte do tratamento.
Com o tratamento adequado e um acompanhamento próximo, muitas vezes é possível reduzir a dor, controlar a progressão e recuperar qualidade de vida. Não estou aqui para prometer perfeição, e sim para caminhar ao seu lado com metas reais e factíveis.
O lipedema é coberto pelos planos de saúde?
Essa ainda é uma questão delicada. Atualmente, existe alguma dificuldade na cobertura por parte dos planos de saúde. O código específico que temos para o lipedema é o CID-11, que ainda não está sendo utilizado plenamente na prática clínica e deve começar a ser adotado a partir de 2027. Quando isso acontecer, a tendência é que o processo fique mais simples.
Na prática, algumas pacientes ainda enfrentam obstáculos, mas, de forma geral, consultas, exames solicitados e alguns tratamentos podem sim ser cobertos. Determinados recursos, como a fisioterapia, também conseguem cobertura em certos casos. Em algumas situações, são necessários laudos e relatórios detalhados para que a paciente obtenha uma cobertura específica, e é parte do meu papel oferecer esse suporte documental sempre que possível.
Como funciona um atendimento que realmente acolhe?
Depois de tantas experiências frustrantes, o que a maioria das minhas pacientes mais deseja é ser ouvida. Por isso, minhas consultas duram cerca de uma hora. Esse tempo permite uma anamnese completa, na qual conversamos não apenas sobre sintomas, mas sobre sono, alimentação, níveis de estresse, rotina e até hobbies. Tudo isso importa quando falamos de uma doença crônica e do seu estilo de vida.
Como endocrinologista, utilizo ferramentas da medicina do estilo de vida e conhecimentos da nutrologia para construir um plano individualizado e sustentável. Na avaliação corporal, faço uso de bioimpedância no atendimento presencial. Nos atendimentos por telemedicina, utilizamos aplicativos, fotos e medidas para estimar a composição corporal e garantir parâmetros objetivos mesmo à distância.
Atendo presencialmente em Vitória, no Espírito Santo, e também por telemedicina, o que me permite acompanhar pacientes de diferentes regiões do Brasil e do exterior. Essa flexibilidade é especialmente importante para quem nunca encontrou, na própria cidade, um profissional com experiência na área de lipedema.
Por que a experiência pessoal faz diferença?
Eu entendo o que você sente porque também convivo com o lipedema. Conheço a insegurança diante do espelho, o desconforto de ouvir comentários desnecessários e a sensação de que o corpo não colabora, por mais que a gente se esforce. Essa vivência me deu uma dimensão que nenhum livro sozinho poderia oferecer.
Ao mesmo tempo, minha formação técnica garante que o acolhimento venha sempre acompanhado de ciência. Empatia sem conhecimento não trata, e conhecimento sem empatia não cura de verdade. Acredito na união dos dois. É essa combinação que busco oferecer a cada mulher que confia em mim a sua saúde.
Palavras que podem ajudar você a buscar informação
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Por que confiar neste conteúdo?
Este artigo foi elaborado com base em fontes científicas reconhecidas e revisado por mim, com o objetivo de oferecer informações seguras, éticas e atualizadas sobre o lipedema. Entre as principais referências e credenciais, destaco:
- Diretrizes e materiais da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM);
- Publicações da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO);
- Diretrizes internacionais sobre lipedema e recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS);
- Conhecimentos baseados na medicina do estilo de vida, com certificação internacional pelo International Board of Lifestyle Medicine (IBLM);
- A experiência clínica da Dra. Roberta Portugal, endocrinologista (CRM/ES 13.643 | RQE 8807 em Endocrinologia | RQE 8808 em Endocrinologia Pediátrica | RQE 8806 em Clínica Médica), com pós-graduação em Nutrologia e grande experiência no cuidado de pacientes com lipedema.
Perguntas frequentes sobre lipedema
Lipedema tem cura? Não há uma cura definitiva, mas há tratamento. Com um conjunto de intervenções bem orientadas, é possível controlar sintomas, reduzir a progressão e melhorar significativamente a qualidade de vida em muitos casos.
Só mulheres com obesidade têm lipedema? Não. Mulheres magras também podem ter lipedema e, muitas vezes, apresentam sintomas intensos. O peso não é um critério obrigatório para o diagnóstico.
Preciso de ressonância para diagnosticar? O diagnóstico é clínico. Na minha prática, quando necessário, costumo solicitar apenas ultrassom ou densitometria como apoio à avaliação.
A dor sempre está presente? Não. A dor ocorre na maioria das pacientes, mas cerca de 14% não a apresentam. A ausência de dor não afasta o diagnóstico, desde que existam outros sintomas.
Fazer dieta resolve o lipedema? A alimentação equilibrada e anti-inflamatória é parte do tratamento, mas não elimina a gordura característica do lipedema sozinha. O cuidado precisa ser mais amplo e individualizado.
Dê o primeiro passo com quem entende você
Se você chegou até aqui, provavelmente já se cansou de ser tratada como exagerada. Quero que saiba que a sua dor tem nome, tem explicação e merece cuidado sério. Você não precisa continuar essa jornada sozinha nem acreditar que o problema é falta de esforço.
Se deseja um acompanhamento responsável, sem culpa e com suporte médico de verdade, será um prazer recebê-la. Você pode agendar sua consulta presencial em Vitória ou por telemedicina e conhecer meus programas de acompanhamento diretamente pelo meu site: drarobertaportugal.com.br. Vamos dar o primeiro passo juntas, no seu ritmo e com respeito à sua história.


