Você sente as pernas pesadas, doloridas, e percebe que os joelhos ou os tornozelos parecem “soltos”, instáveis, como se pudessem torcer a qualquer momento? Talvez você já tenha ouvido que isso é “só excesso de peso” ou “falta de exercício”, mas sente que existe algo mais profundo acontecendo no seu corpo. A relação entre frouxidão ligamentar e lipedema é um dos temas menos compreendidos por quem convive com essa condição, e entender essa conexão pode ser o primeiro passo para aliviar dores que ninguém conseguia explicar.
Eu me chamo Roberta Portugal, sou endocrinologista (CRM/ES 13.643 | RQE 8807) e, além de atender pacientes com grande foco na área de lipedema, também sou portadora dessa condição. Sei, na pele, o que é sentir dor, desconforto e a frustração de não ser levada a sério. Neste artigo, quero conversar com você sobre por que o lipedema vai muito além do acúmulo de gordura e como ele se conecta com a saúde das suas articulações.
O que é lipedema, afinal?
Durante muito tempo, o lipedema foi tratado apenas como um “acúmulo de gordura teimosa” nas pernas e nos braços. Hoje sabemos que essa visão é incompleta e, muitas vezes, injusta com quem sofre com a doença.
O lipedema não é uma doença do tecido adiposo (a gordura), como se pensava. Na verdade, ele é uma doença do tecido conjuntivo, no qual o tecido adiposo é um dos principais afetados. Essa diferença é essencial para compreender por que os sintomas vão muito além da estética.
Quando falamos de lipedema, não estamos falando apenas de mais células de gordura acumuladas. Estamos falando de um conjunto de alterações que inclui:
- Mais inflamação nos tecidos afetados;
- Mais fibrose (endurecimento do tecido);
- Mais flacidez;
- Maior frouxidão ligamentar;
- Um risco aumentado de complicações ortopédicas.
É justamente esse último ponto, o envolvimento do tecido conjuntivo e a frouxidão dos ligamentos, que ajuda a explicar por que tantas pacientes convivem com dores articulares persistentes.
O que é frouxidão ligamentar e por que ela importa?
Os ligamentos são estruturas fibrosas que conectam os ossos entre si e dão estabilidade às articulações. Pense neles como “cordas” resistentes que mantêm o joelho, o tornozelo e o quadril firmes e alinhados durante o movimento.
A frouxidão ligamentar acontece quando esses ligamentos são naturalmente mais elásticos ou menos firmes do que o esperado. Isso pode fazer com que as articulações fiquem mais “soltas”, instáveis e propensas a torções, dores e sobrecarga.
Como o lipedema é uma doença que compromete o tecido conjuntivo, o mesmo tipo de tecido que forma os ligamentos, muitas pacientes apresentam essa frouxidão. Não é coincidência: é uma consequência da própria natureza da doença.
Quando a articulação não tem a estabilidade adequada, os músculos e outras estruturas precisam trabalhar mais para compensar. Com o tempo, isso pode gerar desgaste, inflamação e aquela sensação constante de dor e cansaço nas pernas.
Qual a conexão entre frouxidão ligamentar, lipedema e dores articulares?
Essa é a pergunta que muitas pacientes me trazem no consultório, geralmente depois de anos ouvindo que suas dores eram “normais” ou “emocionais”. A verdade é que existe uma explicação concreta.
No lipedema, três fatores costumam se somar e sobrecarregar as articulações:
- A frouxidão ligamentar: deixa as articulações menos estáveis, o que aumenta o risco de dor e lesões por sobrecarga.
- O acúmulo de tecido nas pernas: gera peso adicional e pode alterar o alinhamento das pernas, mudando a forma como você pisa e distribui a carga do corpo.
- A inflamação crônica de baixo grau: presente na doença, contribui para a dor e para a sensação de desconforto persistente.
Quando esses fatores se combinam, é comum surgirem queixas como dores nos joelhos, sensação de instabilidade ao caminhar, desconforto nos tornozelos e até alterações posturais. Algumas pacientes desenvolvem, ao longo dos anos, problemas ortopédicos que poderiam ter sido melhor acompanhados desde o início.
Por isso, olhar para o lipedema apenas como uma questão estética é um erro que custa caro à qualidade de vida.
Toda paciente com lipedema sente dor?
Essa é uma dúvida importante e a resposta pode surpreender. A dor é, sim, o sintoma mais comum do lipedema, mas não está presente em todas as pacientes. Os estudos indicam que cerca de 86% das pacientes relatam dor, o que significa que aproximadamente 14% podem ter lipedema sem dor.
Portanto, a ausência de dor não exclui o diagnóstico. Por outro lado, é preciso haver algum sintoma para que se pense em lipedema. Pacientes com uma distribuição de gordura desproporcional, mas absolutamente sem nenhum sintoma, não são necessariamente portadoras da doença.
Esse equilíbrio é delicado e reforça a importância de uma avaliação cuidadosa, feita por um profissional com experiência na área, capaz de reunir os sinais e sintomas de forma responsável.
Lipedema é a mesma coisa que obesidade?
Não. Lipedema e obesidade são doenças diferentes, com causas e mecanismos distintos. Uma não se transforma na outra. No entanto, é extremamente frequente que as duas coexistam, e essa combinação merece atenção especial.
O acúmulo de tecido característico do lipedema e os sintomas associados, como dor e peso nas pernas, podem levar a deformidades e a um estilo de vida mais sedentário. Esse sedentarismo, muitas vezes involuntário, pode favorecer o ganho de peso ao longo do tempo. Assim, embora sejam condições distintas, elas podem se influenciar mutuamente.
Um ponto importante sobre o risco metabólico: no lipedema isolado, ele tende a ser menor do que na obesidade. Contudo, quando existe obesidade associada, o risco metabólico passa a ser o da obesidade, com maior atenção a fatores como diabetes tipo 2 e dislipidemia. Como endocrinologista, esse é um dos aspectos que avalio com cuidado em cada paciente.
Vale lembrar ainda que o lipedema não é uma condição exclusiva de mulheres com obesidade. Mulheres magras podem ter lipedema e, muitas vezes, são bastante sintomáticas. O ganho de peso não é uma condição necessária para o diagnóstico.
Como é feito o diagnóstico do lipedema?
O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico. Isso significa que ele se baseia em uma conversa detalhada, na avaliação do histórico e no exame físico cuidadoso. Nas minhas consultas, que duram cerca de uma hora, dedico tempo a entender toda a sua trajetória: quando os sintomas começaram, como evoluíram, quais tratamentos já foram tentados e como isso afeta o seu dia a dia.
Para complementar a avaliação, normalmente solicito apenas exames como ultrassom ou densitometria, que ajudam a confirmar as impressões clínicas. Não é necessário recorrer a exames complexos para chegar ao diagnóstico na maioria dos casos.
Quanto aos profissionais habilitados a diagnosticar, médicos como vasculares, cirurgiões plásticos e endocrinologistas podem fazê-lo, desde que tenham realmente experiência na doença. Esse detalhe faz toda a diferença, pois o lipedema ainda é subdiagnosticado por falta de familiaridade de muitos profissionais com a condição.
No caso do atendimento por telemedicina, utilizamos aplicativos, fotos e medidas para estimar a composição corporal e garantir parâmetros objetivos mesmo à distância. Nas consultas presenciais em Vitória-ES, também utilizo a bioimpedância para uma análise corporal mais completa.
Lipedema pode acontecer em homens?
O lipedema é uma condição predominantemente feminina. Em homens, ele é algo extremamente raro. Quando ocorre, geralmente está associado a problemas hormonais ou a outras patologias que precisam ser investigadas.
Por ser uma doença fortemente ligada a fatores hormonais femininos, o lipedema costuma surgir ou se agravar em momentos de grandes mudanças hormonais, como a puberdade, a gravidez e a menopausa. Essa característica reforça a importância do olhar de um endocrinologista, capaz de compreender esse contexto hormonal de forma integrada.
O plano de saúde cobre o tratamento do lipedema?
Essa é uma preocupação legítima de muitas pacientes. Atualmente, ainda existe alguma dificuldade na cobertura pelos planos de saúde. O código específico que temos para o lipedema é o CID-11, que ainda não está sendo utilizado na prática clínica e deve começar a ser adotado a partir de 2027. Quando isso acontecer, a tendência é que o processo fique mais simples.
De maneira geral, consultas, exames solicitados e alguns tratamentos podem, sim, ser cobertos pelos planos. Certos tratamentos, como a fisioterapia, em alguns casos também conseguem cobertura. Em determinadas situações, são necessários laudos e relatórios detalhados para que a paciente obtenha cobertura específica, algo que faço questão de fornecer sempre que indicado.
Existe tratamento para o lipedema e para as dores articulares?
Aqui preciso ser honesta com você, como sempre sou no consultório: não existe tratamento mágico para o lipedema, e também não existe um único tratamento altamente eficaz. O que existe são muitas pequenas intervenções que, quando somadas, podem trazer um resultado muito bom.
É exatamente por isso que o acompanhamento com alguém que entenda profundamente do tema faz tanta diferença. Cada paciente é única, e as opções precisam fazer sentido para a sua realidade, seus sintomas e seus objetivos.
No caso das dores articulares relacionadas à frouxidão ligamentar, algumas estratégias costumam ajudar:
- Fortalecimento muscular: músculos mais fortes ajudam a estabilizar articulações mais “soltas”, reduzindo a sobrecarga e a dor.
- Controle da inflamação: por meio de hábitos alimentares e de estilo de vida.
- Acompanhamento do peso corporal: quando há obesidade associada, o cuidado metabólico se torna ainda mais importante.
- Atenção postural e ortopédica: em parceria com outros profissionais, quando necessário.
Quero deixar claro que, com o tratamento adequado, muitas vezes é possível conviver com muito menos dor e recuperar boa parte da qualidade de vida. Não prometo perfeição, mas caminho ao seu lado em busca de resultados reais e sustentáveis.
Qual o papel dos exercícios físicos nesse processo?
Os exercícios físicos são fundamentais no cuidado com o lipedema e com as articulações. Porém, no caso de quem tem frouxidão ligamentar, eles precisam ser pensados com atenção especial.
É importante haver controle da intensidade e do volume, além de avaliar a adaptação individual e evitar atividades de alto impacto, que podem sobrecarregar articulações já instáveis. Os exercícios na água são excelentes, mas definitivamente não são os únicos recomendados. Musculação, pilates, bicicleta, yoga e caminhadas também são ótimas opções, sempre respeitando os limites e a evolução de cada pessoa.
O objetivo nunca é punição, e sim movimento com prazer e segurança. Esse é um dos pilares da medicina do estilo de vida que utilizo na minha prática como endocrinologista.
Como a alimentação influencia a inflamação e as dores?
A alimentação tem um papel relevante no controle da inflamação de baixo grau presente no lipedema. Não se trata de dietas restritivas ou de listas de alimentos “proibidos”, mas de escolhas conscientes e sustentáveis ao longo do tempo.
De maneira ampla e bem aceita pela literatura, vale a pena reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, álcool, além dos excessos de sal, açúcar e gorduras. Esses componentes tendem a favorecer processos inflamatórios no corpo.
Como endocrinologista com pós-graduação em Nutrologia, procuro construir com cada paciente um plano alimentar realista, que respeite seus gostos, sua rotina e sua história, sem terrorismo nutricional e sem culpa. Afinal, mudança de hábito que gera sofrimento raramente se mantém.
Por que buscar um acompanhamento especializado faz diferença?
O lipedema é uma condição complexa, que envolve dor, autoestima, mobilidade e saúde metabólica. Muitas pacientes chegam até mim depois de anos de descrédito, tratamentos frustrados e a sensação de que ninguém entende o que elas sentem.
Como portadora de lipedema, transformei a minha própria dor em propósito. Sei o quanto é importante ser ouvida por alguém que compreende a doença não apenas do ponto de vista científico, mas também humano. Por isso, meu atendimento é longo, atento e voltado para você como protagonista do próprio cuidado.
Nos meus programas de acompanhamento, trabalhamos com metas de ação factíveis, análise da composição corporal e um contato próximo ao longo do tempo. Não acredito em soluções milagrosas, mas em um cuidado consistente que, passo a passo, devolve qualidade de vida.
Por que confiar neste conteúdo?
Este artigo foi elaborado com base em diretrizes e fontes reconhecidas, unindo evidência científica e experiência clínica real:
- Diretrizes e materiais da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM);
- Recomendações da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO);
- Diretrizes internacionais sobre lipedema e publicações científicas revisadas;
- Princípios do International Board of Lifestyle Medicine (IBLM), do qual possuo certificação internacional.
Este conteúdo foi escrito e revisado pela Dra. Roberta Portugal (CRM/ES 13.643 | RQE 8807 em Endocrinologia | RQE 8808 em Endocrinologia Pediátrica | RQE 8806 em Clínica Médica), com mais de 20 anos de medicina e grande experiência na área de lipedema, garantindo informações seguras, éticas e atualizadas para o seu cuidado.
Perguntas frequentes sobre frouxidão ligamentar e lipedema
A frouxidão ligamentar sempre está presente no lipedema?
Nem sempre no mesmo grau, mas é comum, já que o lipedema afeta o tecido conjuntivo, o mesmo tipo de tecido que forma os ligamentos. Por isso, muitas pacientes relatam instabilidade e dores articulares.
O lipedema pode causar problemas nos joelhos?
Sim. A combinação de frouxidão ligamentar, alteração no alinhamento das pernas e inflamação pode sobrecarregar os joelhos, favorecendo dor e, ao longo do tempo, complicações ortopédicas que merecem acompanhamento.
Mulheres magras podem ter lipedema com dores articulares?
Sim. O lipedema não é exclusivo de mulheres com obesidade, e muitas pacientes magras são bastante sintomáticas. O ganho de peso não é necessário para o diagnóstico.
Exercício piora as dores no lipedema?
Quando bem orientado, o exercício ajuda a estabilizar as articulações e a reduzir dores. O segredo é controlar intensidade e volume, respeitar a adaptação individual e evitar atividades de alto impacto.
É possível fazer o tratamento por telemedicina?
Sim. Atendo pacientes por telemedicina em todo o Brasil e no exterior, utilizando aplicativos, fotos e medidas para estimar a composição corporal e manter parâmetros objetivos mesmo à distância.
Dê o primeiro passo em direção ao alívio
Se você convive com dores nas pernas, sensação de peso, instabilidade nas articulações e já se sentiu ignorada em suas queixas, saiba que o seu sofrimento tem nome e tem tratamento. A relação entre frouxidão ligamentar e lipedema é real, e compreendê-la é o começo de um cuidado mais respeitoso e eficaz.
Como endocrinologista e portadora de lipedema, estou aqui para caminhar ao seu lado, com ciência, acolhimento e sem julgamentos. Se você deseja um acompanhamento responsável e humanizado, presencial em Vitória-ES ou por telemedicina, convido você a conhecer meus programas e agendar sua consulta pelo meu site: drarobertaportugal.com.br. Vamos dar esse primeiro passo juntas.



