Quando olhamos para os nossos filhos, o instinto mais primitivo e poderoso que sentimos é o de proteção. Queremos protegê-los de dores, de doenças, do julgamento alheio e de qualquer sofrimento. Por isso, eu sei exatamente como o coração de uma mãe ou de um pai aperta quando surge a dúvida: “será que meu filho está engordando demais?”. Essa pergunta geralmente vem carregada de um peso enorme, misturando a preocupação genuína com a saúde da criança e o medo de que ela sofra bullying ou desenvolva problemas futuros. Se você já se pegou observando o corpo do seu filho com preocupação ou se sentiu culpada após uma consulta médica onde o foco foi apenas o número na balança, respire fundo. Eu estou aqui para te dizer que existe um outro caminho.
Na minha prática clínica como endocrinologista, recebo muitas famílias angustiadas. Pais que já tentaram “cortar o açúcar”, que já proibiram o filho de comer em festinhas ou que, na tentativa de ajudar, acabaram transformando a hora da refeição em um campo de batalha. Eu entendo a sua angústia. A sociedade nos bombardeia com padrões inatingíveis e, ao mesmo tempo, com um ambiente obesogênico que torna tudo mais difícil. Mas a culpa não é sua, e muito menos da criança. O excesso de peso na infância é uma condição multifatorial, complexa e que exige, acima de tudo, acolhimento.
Neste artigo, quero convidar você a tirar os óculos do julgamento e colocar as lentes da empatia e da ciência. Vamos conversar sobre como abordar a questão do peso focando naquilo que realmente importa: a saúde metabólica, o bem-estar emocional e a construção de hábitos que seu filho levará para a vida toda. Como médica endocrinologista com certificação internacional em Medicina do Estilo de Vida, acredito que o tratamento da obesidade infantil não deve deixar cicatrizes emocionais. É possível, sim, promover saúde com leveza, sem traumas e com muito amor.
O peso na balança não conta a história toda
Vivemos em uma cultura que supervaloriza a magreza como sinônimo único de saúde, mas a endocrinologia nos mostra que o corpo humano é muito mais complexo do que isso. O peso que vemos na balança é apenas um dado, uma fotografia momentânea composta por ossos, músculos, água, órgãos e gordura. Quando focamos apenas em reduzir esse número a qualquer custo, corremos o risco de ignorar o desenvolvimento global da criança.
Na infância e na adolescência, o corpo está em constante transformação. Existe o estirão do crescimento, as mudanças hormonais da puberdade e as necessidades energéticas para o desenvolvimento cognitivo. Uma criança não é um adulto em miniatura. Por isso, a abordagem “fechar a boca e malhar” é não apenas ineficaz, mas perigosa para a saúde mental e física dos pequenos.
Ao receber uma família no meu consultório, minha prioridade não é estipular uma meta de quilos a serem perdidos. Minha prioridade é entender quem é aquela criança. Como é o sono dela? Ela brinca e se movimenta ou passa o dia nas telas? Como é o ambiente emocional em casa? A criança come por fome ou por ansiedade? A saúde da criança depende do equilíbrio desses pilares. Muitas vezes, ao ajustarmos a rotina de sono e diminuirmos o tempo de telas, o peso se estabiliza naturalmente, sem que tenhamos falado a palavra “dieta” uma única vez.
Por que dietas restritivas são perigosas na infância?
Talvez você já tenha ouvido o conselho de “cortar tudo o que ele gosta” para resolver o problema rápido. Eu preciso ser muito honesta com você: restrição severa gera compulsão. O cérebro da criança (e o do adulto também) entende a proibição como uma ameaça. Quando dizemos “você nunca mais vai comer brigadeiro”, transformamos o brigadeiro no objeto de desejo mais valioso do mundo.
Além disso, o terrorismo nutricional — classificar alimentos como “venenos” ou “proibidos” — planta a semente da culpa. A criança passa a comer escondido, a sentir vergonha de ter fome e a associar a comida a algo sujo ou errado. Isso pode ser o gatilho para transtornos alimentares graves no futuro, como anorexia ou bulimia. O nosso objetivo é o oposto: queremos que a criança desenvolva uma relação tranquila e intuitiva com a comida, sabendo ouvir os sinais de saciedade do próprio corpo.
Na minha abordagem, utilizamos ferramentas da medicina do estilo de vida para ensinar a família a fazer melhores escolhas, não pela proibição, mas pela adição. Em vez de focar no que tirar, focamos no que colocar: mais cores no prato, mais frutas, mais água, mais brincadeiras ao ar livre. É uma mudança de mentalidade que envolve a casa toda, e não apenas a criança que está acima do peso.
Sinais de alerta: quando procurar uma endocrinologista pediátrica?
Muitos pais ficam na dúvida se o ganho de peso é apenas uma “fase” ou se é hora de buscar ajuda especializada. Embora cada criança tenha seu ritmo, existem alguns sinais que indicam a necessidade de uma avaliação com uma endocrinologista pediátrica em Vitória-ES ou através de telemedicina. Não para julgar, mas para investigar e orientar.
Devemos estar atentos se:
- O ganho de peso for muito rápido e repentino, sem mudança aparente na rotina;
- Houver parada ou desaceleração no crescimento (a criança parou de ganhar altura);
- A criança apresentar sinais de puberdade precoce (aparecimento de mamas ou pelos antes dos 8 anos em meninas e 9 anos em meninos);
- Surgirem manchas escurecidas no pescoço, axilas ou virilhas (chamadas de acantose nigricans, um sinal de resistência à insulina);
- Houver roncos frequentes ou apneia do sono;
- A criança reclamar de dores articulares que limitam suas brincadeiras.
Também é importante investigar o histórico familiar. Se há casos de diabetes tipo 2, colesterol alto ou problemas de tireoide na família, a avaliação preventiva se torna ainda mais relevante. E, claro, sempre que o peso estiver afetando a autoestima e a interação social da criança, é hora de acolher e buscar suporte profissional.
A importância de descartar causas hormonais (sem culpar a tireoide por tudo)
Uma das frases que mais escuto no consultório é: “Dra. Roberta, será que é a tireoide?”. É compreensível que os pais busquem uma causa orgânica, algo que possa ser “consertado” com um remédio. E, como endocrinologista, minha função é investigar isso a fundo. Doenças como o hipotireoidismo ou a Síndrome de Cushing podem, sim, levar ao ganho de peso.
No entanto, é fundamental alinhar as expectativas: na grande maioria dos casos de obesidade infantil (mais de 95%), a causa não é puramente hormonal, mas sim comportamental e ambiental (o que chamamos de obesidade exógena). Isso é uma boa e uma má notícia. A “má” é que não existe uma pílula mágica. A boa é que a solução está em nossas mãos, através da mudança de estilo de vida.
Mesmo quando diagnosticamos uma alteração hormonal, o tratamento medicamentoso sozinho não faz milagres. Ele precisa vir acompanhado de uma rotina saudável. Por isso, a investigação clínica serve para nos dar segurança, mas o tratamento real acontece no dia a dia, nas escolhas que fazemos dentro de casa.
Medicina do Estilo de Vida: 6 pilares para a saúde da criança
Como mencionei, utilizo os pilares da Medicina do Estilo de Vida para guiar o tratamento. Não se trata de uma “dieta para a criança”, mas de um projeto de saúde para a família. Quando os pais mudam, os filhos mudam pelo exemplo, e não pela imposição. Vamos ver como aplicar isso na prática?
1. Alimentação: Descascar mais, desembalar menos
A base da alimentação deve ser “comida de verdade”. Arroz, feijão, carnes, ovos, legumes, frutas. Os ultraprocessados (biscoitos recheados, salgadinhos, refrigerantes, macarrão instantâneo) são desenhados pela indústria para serem hiperpalatáveis e viciantes. Não precisamos bani-los da face da Terra, mas eles devem ser exceção, e não regra. Envolver a criança no preparo dos alimentos, levá-la à feira e apresentar novos sabores sem forçar são estratégias excelentes.
2. Movimento: Brincar é coisa séria
Criança não precisa “malhar” em academia se não quiser. Criança precisa brincar! O sedentarismo é um dos grandes vilões da atualidade. O corpo humano foi feito para se mexer. Incentive brincadeiras ativas: pega-pega, bicicleta, pular corda, natação, dança na sala. O importante é que a criança encontre prazer no movimento, para que isso se torne um hábito e não uma obrigação chata.
3. Sono: O guardião do crescimento
Muitos pais não sabem, mas dormir mal engorda. É durante o sono que regulamos os hormônios da fome (grelina) e da saciedade (leptina), além de liberarmos o hormônio do crescimento (GH). Uma criança que dorme pouco ou dorme mal tende a ficar mais irritada, impulsiva e com mais desejo por alimentos ricos em açúcar e gordura. Estabelecer uma rotina de sono, com horários regulares e um ambiente calmo, é parte essencial do tratamento.
4. Controle de Tóxicos (Telas e Ambiente)
Aqui entra um ponto delicado: as telas. O excesso de tempo em frente a tablets e celulares não apenas reduz a atividade física, mas também expõe a criança a publicidade de alimentos não saudáveis e prejudica o sono devido à luz azul. Negociar limites de tempo de tela é fundamental para a saúde da criança.
5. Manejo do Estresse e Emoções
Crianças também sofrem de estresse e ansiedade. Mudanças de escola, bullying, problemas familiares… tudo isso pode ser gatilho para comer emocionalmente. Criar um ambiente de escuta ativa, onde a criança se sinta segura para expressar o que sente, é vital. Às vezes, o que a criança precisa não é de um doce, é de um abraço e de ser ouvida.
6. Conexão Social e Afeto
O amor nutre. Refeições em família, longe da TV, fortalecem os vínculos e melhoram a qualidade da alimentação. Estudos mostram que crianças que fazem refeições com os pais tendem a ter um peso mais saudável. Esse momento de conexão é sagrado.
Como os pais podem ajudar (sem atrapalhar)
Eu sei que a intenção é sempre a melhor, mas algumas atitudes podem gerar resistência e trauma. Evite a todo custo fazer comentários sobre o corpo da criança (“você está gordo”, “essa roupa não serve mais”, “desse jeito vai explodir”). Essas frases ferem profundamente e destroem a autoestima.
Em vez de focar na estética, foque na função e na saúde. Elogie a criança por suas habilidades, por sua inteligência, por sua gentileza, e não pelo seu tamanho. Se for necessário fazer ajustes na alimentação, faça para todos. Não coloque o prato do seu filho com salada e frango grelhado enquanto o resto da família come pizza. Isso é excludente e injusto. A regra é: se não é saudável para o meu filho, por que seria para mim?
Seja o exemplo. As crianças aprendem por imitação. Se elas virem os pais comendo frutas e se exercitando com prazer, elas naturalmente tenderão a copiar esse comportamento. Seja um parceiro do seu filho nessa jornada, e não um fiscal do prato dele.
Como funciona a minha consulta de endocrinologia pediátrica?
Entendo que muitos pacientes chegam ao consultório com medo de serem repreendidos. No meu atendimento, seja presencialmente como endocrinologista em Vitória-ES ou via telemedicina para todo o Brasil, a consulta é um espaço de acolhimento.
As consultas duram cerca de uma hora. Tempo suficiente para eu ouvir a história de vocês, entender a rotina da casa, as preferências da criança e as dificuldades dos pais. Eu não prescrevo dietas de gaveta. Juntos, construímos um plano de ação realista, baseado em metas possíveis.
O objetivo é ver a criança com mais energia, dormindo melhor, crescendo bem e feliz. A perda de peso é uma consequência natural da recuperação da saúde, e não o único fim.
Para as famílias que precisam de um suporte mais próximo, ofereço programas de acompanhamento onde caminhamos lado a lado. A mudança de hábitos não acontece do dia para a noite, e ter uma médica acessível para tirar dúvidas e ajustar a rota faz toda a diferença para evitar a frustração e o efeito sanfona.
Um convite para cuidar do futuro
Cuidar da saúde do seu filho hoje é o maior presente que você pode dar para o adulto que ele será amanhã. Mas essa jornada não precisa ser dolorosa, cheia de privações e brigas. Ela pode ser uma oportunidade de a família inteira se reconectar e descobrir uma vida mais leve e saudável.
Se você percebe que seu filho está lutando contra o peso, se você se sente perdida sobre como agir ou se já cansou de tentar métodos que não funcionam, saiba que você não está sozinha. Eu estou aqui para te ajudar a guiar seu filho rumo à saúde plena, respeitando o tempo e a individualidade dele.
Não espere o problema se agravar. Vamos começar hoje a construir uma nova história para a saúde da sua família?
Agende sua consulta presencial em Vitória/ES ou por telemedicina. Será um prazer receber vocês e cuidar do que vocês têm de mais precioso.
Por que confiar neste conteúdo?
Este artigo foi elaborado com base em diretrizes científicas e na experiência clínica da Dra. Roberta Portugal, garantindo informações éticas e seguras para a sua família.
- Autoria: Dra. Roberta Portugal (CRM/ES 13.643 | RQE 8807 Endocrinologia | RQE 8808 Endocrinologia Pediátrica | RQE 8806 Clínica Médica).
- Bases Científicas: Conteúdo alinhado às diretrizes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) e do International Board of Lifestyle Medicine (IBLM).
- Experiência: Mais de 20 anos de prática médica, com foco em atendimento humanizado e Medicina do Estilo de Vida.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O excesso de peso na infância desaparece com o “estirão” do crescimento?
Nem sempre. Embora o crescimento ajude a distribuir o peso, a obesidade infantil tende a persistir na vida adulta se os hábitos não forem modificados. Esperar “passar sozinho” pode agravar o quadro e aumentar o risco de doenças metabólicas precoces.
2. Devo proibir doces e açúcar para meu filho emagrecer?
Proibições radicais costumam gerar o efeito contrário: aumentam o desejo e podem levar à compulsão alimentar. O ideal é reduzir a frequência e a disponibilidade em casa, tratando o doce como algo eventual, e não como parte da rotina diária, tudo isso dentro de uma reeducação alimentar familiar.
3. A partir de qual idade posso levar meu filho ao endocrinologista?
A endocrinologia pediátrica acompanha desde o nascimento até o final da adolescência. Se houver preocupação com o peso, crescimento ou desenvolvimento, a avaliação pode ser feita em qualquer idade. A intervenção precoce costuma ter melhores resultados.
4. Existe remédio para criança emagrecer?
Existem medicações aprovadas para o tratamento da obesidade infantil em faixas etárias específicas e casos selecionados. No entanto, a medicação nunca substitui a mudança de estilo de vida. Ela é uma ferramenta que deve ser avaliada criteriosamente por um especialista.
5. Como funciona a consulta online para crianças?
A telemedicina é extremamente eficaz para o acompanhamento da obesidade e hábitos. Conversamos com os pais e a criança (dependendo da idade), avaliamos exames, rotina alimentar, sono e atividade física. Utilizamos parâmetros visuais e orientamos como aferir medidas em casa para um monitoramento preciso.



