Se você chegou até aqui, provavelmente já ouviu alguém dizer que suas pernas doloridas, pesadas e cheias de hematomas eram “apenas gordura” ou “falta de dieta”. Talvez tenha saído de vários consultórios com a sensação de não ter sido ouvida, tentando emagrecer com todas as forças sem que a parte inferior do corpo respondesse. O tratamento para lipedema começa justamente por aqui: pelo reconhecimento de que o seu sofrimento tem nome, tem explicação científica e, sobretudo, tem caminho. E esse caminho nunca olha só para as pernas.
Sou a Dra. Roberta Portugal, endocrinologista (CRM/ES 13.643 | RQE 8807), e escrevo este texto como médica e também como mulher que convive com lipedema. Entendo, na pele e na prática clínica, que tratar essa condição exige enxergar você por inteiro: seus hormônios, seu sono, suas emoções, sua alimentação e a sua história. Neste artigo, quero explicar por que o olhar para o corpo todo faz toda a diferença e como podemos construir, juntas, um plano que devolva qualidade de vida.
O que é o lipedema e por que ele não é “só gordura nas pernas”?
O lipedema é frequentemente confundido com sobrepeso ou com uma questão estética. Essa confusão é um dos principais motivos pelos quais tantas mulheres demoram anos para receber um diagnóstico. Na verdade, o lipedema não é uma doença do tecido adiposo isoladamente. Ele é, essencialmente, uma doença do tecido conjuntivo, no qual o tecido gorduroso é um dos principais componentes acometidos.
Isso significa que não estamos falando apenas de um maior acúmulo de células de gordura. No lipedema, existe mais inflamação, mais fibrose, mais flacidez, maior frouxidão dos ligamentos e um risco aumentado de complicações ortopédicas ao longo do tempo. Por isso, encarar o problema como uma simples questão de “comer menos” ignora completamente a natureza da doença.
A distribuição da gordura costuma ser desproporcional, concentrando-se em pernas, quadris e, muitas vezes, braços, enquanto o tronco permanece relativamente poupado. Essa desproporção, quando acompanhada de sintomas, é uma das pistas mais importantes para o diagnóstico.
Por que olhar apenas para as pernas é um erro no tratamento?
Quando reduzimos o lipedema às pernas, corremos o risco de propor soluções incompletas. A condição envolve dor, inflamação de baixo grau, alterações hormonais que influenciam o quadro e, muito frequentemente, um sofrimento emocional profundo, construído ao longo de anos de descrédito e tentativas frustradas.
Como endocrinologista, utilizo ferramentas da medicina do estilo de vida e conhecimentos da nutrologia para avaliar o conjunto. Não adianta focar somente na área afetada se não olharmos para o sono, para os níveis de estresse, para a alimentação e para a saúde hormonal como um todo. O lipedema não acontece em uma perna isolada do resto do corpo; ele acontece em uma mulher inteira, com uma vida inteira.
Nas minhas consultas, que duram cerca de uma hora, dedico tempo a uma anamnese completa do estilo de vida. Quero saber como você dorme, como se alimenta, quais são seus hobbies, como está o seu nível de estresse e como a doença tem afetado a sua autoestima. Só assim conseguimos montar um plano que realmente faça sentido para a sua realidade.
Quais são os principais sintomas do lipedema?
A dor é o sintoma mais característico, mas é importante esclarecer um ponto que gera muita dúvida: ela não está presente em 100% dos casos. Estima-se que a dor apareça em cerca de 86% das pacientes, ou seja, existe lipedema sem dor em aproximadamente 14% dos casos. A ausência de dor, portanto, não exclui o diagnóstico.
Por outro lado, é fundamental que existam sintomas. Uma paciente com distribuição de gordura desproporcional, mas sem nenhuma queixa, não é considerada portadora de lipedema. Entre os sinais e sintomas mais comuns, costumo observar:
- Sensação de peso e cansaço nas pernas, especialmente ao final do dia.
- Dor à pressão ou espontânea nas áreas afetadas.
- Facilidade para desenvolver hematomas, muitas vezes sem lembrar de ter batido.
- Inchaço que piora com o calor ou após longos períodos em pé.
- Desproporção entre a parte superior e a parte inferior do corpo.
- Pele com aspecto irregular e maior flacidez.
Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para deixar de acreditar que “é tudo culpa sua” e passar a compreender que existe uma condição real por trás dos sintomas.
Lipedema é uma condição exclusiva de mulheres com obesidade?
Não. Esse é um dos mitos que mais gera sofrimento. O lipedema é mais comumente associado à obesidade, mas mulheres magras também podem ter lipedema e, muitas vezes, são extremamente sintomáticas. O ganho de peso não é uma condição necessária para o diagnóstico.
É importante entender que lipedema e obesidade são doenças diferentes. Uma não se transforma na outra. Entretanto, é extremamente frequente que as duas coexistam. O acúmulo de gordura característico do lipedema e os sintomas associados, como dor e peso nas pernas, podem levar a deformidades e a maior sedentarismo. Esses fatores, por sua vez, podem favorecer o ganho de peso, criando um ciclo difícil de romper.
Do ponto de vista metabólico, o risco tende a ser menor no lipedema isolado do que na obesidade. Porém, quando há obesidade associada, o risco metabólico passa a ser o da obesidade. Por isso, avaliar a composição corporal e o quadro completo é tão importante para definir prioridades no tratamento.
Vale mencionar também que o lipedema em homens é extremamente raro. Trata-se de uma condição predominantemente feminina. Quando ocorre no sexo masculino, geralmente está associado a problemas hormonais ou a outras patologias.
Como é feito o diagnóstico do lipedema?
O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico. Ou seja, ele se baseia na sua história, nos seus sintomas e no exame físico realizado por um profissional com experiência na doença. Médicos como angiologistas, cirurgiões vasculares, cirurgiões plásticos e endocrinologistas podem diagnosticar o lipedema, desde que tenham real familiaridade com a condição.
Na minha prática, costumo solicitar apenas exames complementares como ultrassom ou densitometria para auxiliar na avaliação e no acompanhamento. O mais importante, no entanto, é a escuta atenta e a análise cuidadosa do conjunto de sinais. Um diagnóstico bem-feito valida o que você sente e abre a porta para um plano de cuidado individualizado.
O lipedema tem cura? O que esperar do tratamento?
Preciso ser honesta com você, porque respeito demais a sua história para prometer o que não é verdade. Não existe tratamento mágico para o lipedema, tampouco um único tratamento altamente eficaz que resolva tudo de uma vez. O que existe, e isso é muito importante, são diversas intervenções que, somadas, podem trazer um resultado muito bom.
É justamente por isso que o acompanhamento com alguém que entenda profundamente do tema faz tanta diferença. Cada pequena intervenção precisa ser escolhida de acordo com o seu caso, com os seus sintomas e com a sua rotina. Entre os pilares que costumo trabalhar, destaco:
- Alimentação com foco anti-inflamatório: priorizamos alimentos naturais e reduzimos ultraprocessados, excesso de sal, açúcar, gorduras de má qualidade e álcool. O objetivo não é restrição punitiva, e sim nutrir o corpo de forma inteligente.
- Exercícios físicos bem orientados: a atividade física é fundamental no lipedema, mas precisa de controle de intensidade e de volume, além de respeitar a adaptação individual e evitar o alto impacto. Exercícios na água são excelentes, mas definitivamente não são os únicos recomendados. Musculação, pilates, bicicleta, yoga e caminhadas são ótimas opções, sempre ajustadas a você.
- Manejo da dor e da inflamação: estratégias que reduzem o desconforto e melhoram o dia a dia.
- Cuidado com sono e estresse: pilares que impactam diretamente a inflamação e a percepção da dor.
- Suporte emocional e acolhimento: reconhecer o impacto do lipedema na autoestima é parte essencial do tratamento.
Com o tratamento adequado e um acompanhamento consistente, muitas vezes é possível viver com muito menos dor, mais mobilidade e uma relação mais leve com o próprio corpo. Não trabalho com a ideia de perfeição, e sim com a de qualidade de vida real e sustentável.
Por que o acompanhamento de longo prazo é tão importante?
O lipedema é uma condição crônica. Isso não é motivo para desânimo, mas sim para compreender que o cuidado precisa ser contínuo. Assim como cuidamos da pressão arterial ou da glicemia ao longo da vida, o lipedema pede um olhar de acompanhamento, com ajustes ao longo do tempo.
Nos meus programas de acompanhamento, ofereço consultas longas, avaliação de composição corporal por bioimpedância e um contato próximo ao longo da jornada. Nos atendimentos presenciais em Vitória-ES, utilizo equipamentos como o InBody 370. Já nos atendimentos por telemedicina, que realizo para pacientes de todo o Brasil e também no exterior, utilizamos aplicativos, fotos e medidas para estimar a composição corporal e garantir parâmetros objetivos mesmo à distância.
Esse modelo de acompanhamento permite que ajustemos o plano conforme o seu corpo responde, celebrando cada avanço e reorganizando as estratégias sempre que necessário. Você não caminha sozinha nesse processo.
O lipedema é coberto pelos planos de saúde?
Ainda existe alguma dificuldade quanto à cobertura dos planos de saúde para o lipedema. O código que temos atualmente é o CID-11, que ainda não está sendo utilizado na prática clínica e deve começar a ser adotado a partir de 2027. Quando isso acontecer, a tendência é que o acesso fique mais simples.
Por enquanto, algumas pacientes ainda enfrentam desafios com a cobertura, mas, de maneira geral, consultas, exames solicitados e alguns tratamentos podem sim ser cobertos pelos planos. Tratamentos como a fisioterapia, em determinados casos, também conseguem cobertura. Em algumas situações, são necessários laudos e relatórios detalhados para que você consiga a autorização de tratamentos específicos, e isso faz parte do suporte que ofereço.
Como a endocrinologia se conecta ao tratamento do lipedema?
Como endocrinologista, minha atenção se volta para o equilíbrio do corpo como um todo. Muitas mulheres com lipedema apresentam também questões como resistência à insulina, alterações da tireoide, síndrome dos ovários policísticos ou passam por fases hormonais delicadas, como a menopausa. Momentos de grande variação hormonal costumam influenciar o quadro.
Ao integrar o cuidado endocrinológico com ferramentas da medicina do estilo de vida e conhecimentos da nutrologia, consigo enxergar as conexões entre esses fatores e propor um plano coerente. Não se trata de tratar cada sintoma de forma isolada, mas de compreender como tudo se relaciona dentro do seu organismo. Esse olhar amplo é o que diferencia um tratamento verdadeiramente individualizado.
Por que confiar neste conteúdo?
Este artigo foi elaborado com base em referências científicas atuais e na minha experiência clínica e pessoal com a doença. As orientações aqui apresentadas se apoiam em:
- Diretrizes e materiais da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
- Recomendações da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO).
- Diretrizes internacionais sobre lipedema e princípios do International Board of Lifestyle Medicine (IBLM).
- A minha atuação como endocrinologista com dupla titulação e certificação internacional em Medicina do Estilo de Vida, além de pós-graduação em Nutrologia.
Sou a Dra. Roberta Portugal (CRM/ES 13.643 | RQE 8807 em Endocrinologia | RQE 8808 em Endocrinologia Pediátrica | RQE 8806 em Clínica Médica), com mais de 20 anos de medicina e dedicação especial ao atendimento de mulheres com lipedema. Esse compromisso garante informações seguras, éticas e atualizadas para o seu cuidado.
Perguntas frequentes sobre o tratamento para lipedema
Lipedema sem dor existe? Sim. Embora a dor seja o sintoma mais comum, presente em cerca de 86% das pacientes, existe lipedema sem dor em aproximadamente 14% dos casos. Contudo, é preciso haver sintomas para o diagnóstico.
Mulheres magras podem ter lipedema? Sim. Embora a condição seja mais associada à obesidade, mulheres magras também podem apresentar lipedema e, muitas vezes, com sintomas intensos.
Emagrecer resolve o lipedema? Emagrecer pode ajudar no quadro metabólico e no bem-estar geral, especialmente quando há obesidade associada. No entanto, o lipedema não desaparece apenas com a perda de peso, pois é uma doença do tecido conjuntivo, e não apenas de acúmulo de gordura.
Qual médico trata lipedema? Angiologistas, cirurgiões vasculares, cirurgiões plásticos e endocrinologistas podem diagnosticar e acompanhar o lipedema, desde que tenham experiência real na doença.
Exercício físico piora o lipedema? Ao contrário, o exercício é fundamental. O importante é que seja bem orientado, com controle de intensidade e volume, evitando o alto impacto e respeitando a adaptação individual.
Um convite para cuidar de você por inteiro
Se você já se cansou de ouvir que era “só perder peso”, de tratamentos estéticos frustrados e da sensação de não ser levada a sério, quero que saiba que existe outro caminho. Um caminho que valida a sua dor, que enxerga o seu corpo como um todo e que caminha ao seu lado com ciência, empatia e respeito.
Convido você a conhecer meus programas de acompanhamento e a agendar sua consulta, seja presencialmente em Vitória-ES ou por telemedicina, de onde quer que você esteja. Para conhecer mais sobre o meu trabalho e dar o primeiro passo, acesse o meu site oficial. Vamos, juntas, devolver leveza, mobilidade e qualidade de vida à sua rotina.



